A obscura relação entre anarcocapitalistas e supremacistas brancos

A relação entre ancaps e a direita racista se torna cada vez mais comum, e é a própria ideologia anarcocapitalista que promove essa união.5 min


anarcocapitalismo

A relação entre anarcocapitalistas e supremacistas brancos é uma realidade. Ela se desenvolveu a partir de uma corrente do “libertarianismo” chamada de Paleolibertarianismo, desenvolvida pelos teóricos anarcocapitalistas Murray Rothbard e Llewellyn H. Rockwell (mais conhecido como Lew Rockwell), que combina conservadorismo social com oposição ao intervencionismo estatal.

Nas palavras de Rockwell:

“O paleolibertarianismo sustenta que a liberdade é o maior fim político do homem e que todas as intervenções do governo, sejam elas econômicas, culturais, sociais e internacionais, equivalem a um ataque a prosperidade, a moral e a civilização, e portanto, deveria ser oposta em todos os níveis”.

O “paleo” se originou nos trabalhos de Rothbard, de seus antecessores e na “Velha Direita” estadunidense do entre-guerras que se opôs ao New Deal, em contraste aos “neolibertários” que surgiram com a politização do movimento libertário na década de 80.

Rothbard Rockwell
Os ideológos do anarcocapitalismo Murray Rothbard e Lew Rockwell.

Vendo que os libertários mainstream do Partido Libertário advocavam ideias consideradas “esquerdistas e libertinas”, Rothbard e Rockwell rompem com o partido após as eleições de 1988 formando o movimento paleolibertarianista.

Rockwell explicou em seu ensaio “The Case for Paleo-Libertarianism” que o Partido Libertário tinha virado uma casa dos libertinos e, para crescer, deveria abraçar ideais conservadores. Segundo Rockwell:

“Segregação estatal era ruim, mas integração estatal também é ruim. Entretanto, segregação estatal não era ruim, pois separado era ruim. Querer se associar com membros de sua raça, nacionalidade, religião, classe, sexo ou partido político é um impulso natural do ser humano”.

David Duke
O ex-líder da KKK David Duke.

Em seu ensaio “Right-Wing Populism: A Strategy for the Paleo Movement” escrito em 1992, Rothbard lamentou que os intelectuais mainstream e os formadores de opinião ignoravam os pontos de vistas libertários. Nele, Rothbard apontou David Duke, ex-lider da KKK e então candidato a nomeação do partido republicano à presidência dos EUA, como modelo para esse novo movimento “alcançar os Rednecks”.

Sobre David Duke, Rothbard disse:

“É fascinante que não há nada no programa ou na campanha atual de Duke que não possa ser abraçado pelos paleolibertarios; diminuir impostos, desmantelar a burocracia, cortar o estado de bem-estar e as ações afirmativas, chamando por direitos iguais pra todos os americanos, incluindo brancos: o que tem de errado nisso?”

E para alcançar os rednecks, Rothbard disse:

“A realidade do sistema atual é que esta constituído numa aliança maligna das grandes corporações liberais e a elite midiática, que através de um governo enorme, tem privilegiado uma subclasse de parasitas, e todos eles têm oprimido a maior parte da classe média e dos trabalhadores da América. Por isso, a estratégia dos libertários é o “populismo de extrema-direita”, que é denunciar essa aliança maligna.”

Em 1994, Rothbard faz uma resenha do infame livro racista pseudocientífico “The Bell Curve e comemorou como o livro estabeleceu “cientificamente” que “indivíduos, grupos étnicos e raças diferem entre si em inteligência e em outros tantos traços, e que essa inteligência, como também outras características de temperamento são em parte hereditários”. Para Rothbard, isso deveria ser comemorado:

“Duas razões nós já mencionamos: celebrar a vitória da liberdade de investigação e da verdade em sim mesma; e uma bala no coração do projeto igualitarista-socialista. Mas há uma terceira razão também: uma poderosa defesa dos resultados do livre mercado. Se nós populistas e libertários abolirmos o estado de bem-estar social, e os direitos de propriedade e o livre mercado triunfarem mais uma vez, muitos indivíduos não iriam gostar do resultado. Nesse caso, estes grupos étnicos que estariam concentrados nas classes de baixa-renda e empregos menos prestigiosos, guiados pelos seus mentores socialistas, provavelmente iriam gritar que o capitalismo de livre-mercado é mal e discriminatório e que o coletivismo seria necessário para reequilibrar a balança. Nesse caso, o argumento da inteligência seria útil na defesa do livre mercado e de uma sociedade livre de ataques ignorantes. Resumindo, a ciência racialista não é um ato de agressão para encobrir a opressão de um grupo sobre o outro, mas uma operação de defesa da propriedade privada contra seus agressores”.

Rothbard se definia como um “judeu pró-cristão, que pensa que tudo de bom na civilização ocidental se deve ao cristianismo”. Curiosamente Rothbard também simpatizava com Pat Buchanan, um negacionista do Holocausto. Sua servidão, como judeu, ao cristianismo e sua conveniência com o revisionismo nazista demonstram que Rothbard tabém flertava com o anti-semitismo .

Outro “pensador” paleolibertário que flerta com a extrema-direita é Hans-Hermann Hoppe, o qual, entre outras coisas, é um ferrenho defensor da monarquia e crítico da democracia. Em seu livro “Democracy: The God That Failed”, Hoppe argumenta que:

“Não pode haver tolerância com democratas e comunistas numa ordem social libertária. Eles deveram ser fisicamente separados e expulsos dessa sociedade. Da mesma forma, numa aliança fundada com o objetivo de proteger familiares e parentes, não pode haver tolerância em relação aqueles que promovam estilos de vida incompatíveis com esse objetivo. Eles, os defensores de estilos de vida alternativos, não familiares e centrados nos país, como, por exemplo, hedonismo, parasitismo, ambientalismo, homossexualidade ou comunismo terão de ser fisicamente removidos da sociedade para a manutenção de uma ordem libertária”.

Após 4 anos, no lançamento de seu livro, Alberto Benegas, professor de economia da Universidade de Buenos Aires, invalidou a tese de Hoppe sobre a monarquia ser melhor que a democracia. Benegas mostrou evidências empíricas de que as monarquias modernas são bem mais pobres que as democracias modernas.

Hoppe
O filósofo e economista da Escola Austríaca Hans-Hermann Hoppe.

Hoppe, como discípulo de Mises, acredita que teorias econômicas não “podem ser refutadas por dados históricos”. Hoppe também citou o trabalho do cientista racialista Phillipe Rushton, arguentando que os dados de Benegas estavam distorcidos pois muitas monarquias atuais eram formados por “Negroides”, que seriam inferiores de acordo com Rushton.

Sobre a imigração, Hoppe se mostrou favorável, desde que tivesse um viés pró-europeu.

“Mais especificamente, significa distinguir entre ‘cidadãos’ e ‘residentes estrangeiros’ e excluir esses últimos de todas as formas de direito ao estado de bem-estar social. Significa requerer para a cidadania de um residente estrangeiro, o patrocínio pessoal de um cidadão residente e sua confiabilidade de todos os danos a propriedade causados por esse imigrante. Significa requerer um contrato de emprego com o cidadão residente, implicando que todos os imigrantes tem que demonstrar não somente proficiência na língua inglesa, como performance intelectual superior, caráter e valores compatíveis, o que levaria a um previsível e sistemático viés imigratório pró-europeu.”

Com todos esses discursos em defesa do segregacionismo e de vilificação de uma “subclasse parasita”, a qual, como podemos imaginar, é uma referência às classes mais pobres estadunidenses — majoritariamente formada por negros e latinos — além de endossar obras e autores racialistas e o discurso racial-nativista anti-imigração, foi natural que o movimento paleolibertario ganhasse adeptos e simpatizantes entre supremacistas brancos, neo-confederados e até neonazistas, como desejado por Rothbard e Rockwell.

ancaps e nazis

Uma mostra atual dessa aproximação foi o convite do famoso supremacista branco Richard Spencer feito pelo Hoppe Caucus para discursar na Conferência Internacional dos Estudantes pela Liberdade. Recentemente, um site “libertário conservador” celebrou a união entre os “libertários e a direita alternativa” para a destruição da esquerda”, na ocasião do “Unite the right”, manifestação da extrema-direita estadunidense em que uma pessoa acabou morrendo. Nessa manifestação, bandeiras anarcocapitalistas, confederadas e até neonazistas tremulavam juntas frente à oposição dos manifestantes de esquerda.

Assim, quando aquele seu amiguinho anarcocapitalista te disser que ele defende “liberdade”, lembre-se que os mentores dessa ideologia já tinham em mente que iriam desfrutar dessa “liberdade” toda, nem que para isso usassem da supremacia racial para garantir essa “liberdade”.


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