Ayn Rand, a “filósofa” egoísta que sobreviveu graças à seguridade social

Conheça a irônica história da musa dos neoliberais de internet e dos ancaps, que pregava individualismo, mas, no fim, dependeu de ajuda estatal para não morrer de forma desumana. 3 min


Ayn Rand

Uma robusta rede de previdência social pode beneficiar tanto os indivíduos numa sociedade quanto a sociedade em si. Livre do medo da extrema pobreza e com a possibilidade de realizar a suas necessidades básicas, as pessoas têm uma melhor oportunidade de alcançar seus objetivos a longo-prazo, a inventar, a criar e a inovar. É claro que existem diversas pessoas que pensam o contrário. Entre eles, os apóstolos de Ayn Rand, que seguem o que ela pregava ao pé da letra: aqueles que dependem dos sistemas de previdência social são – para usar o horrível termo dela – “parasitas”, e aqueles que detém gigantes riquezas privadas são os verdadeiros heróis.

Um discípulo de Rand, chamado Alan Greenspan, por exemplo, iniciou a era do “Reagonomics” no começo dos anos 1980 ao planejar “um aumento regressivo de impostos sobre os pobres e a classe média”, assim como na “taxa de Previdência Social – combinada com um corte nos benefícios”, descreve Gary Weiss. Para Greenspan, “isso não era nenhuma contradição. A Previdência Social é sistema de altruísmo na sua pior face. Seus beneficiários são saqueadores. Aumentar as taxas para eles e cortar seus benefícios não foi nenhuma perda para a sociedade”.

Ayn Rand
Alan Greenspan e Ayn Rand ao centro.

Um problema com o raciocínio de Rand é que seja “parasita” ou um titã da indústria, nenhum de nós é mais do que um ser humano, sujeito às mesmas reviravoltas da vida, à mesma incerteza existencial, às mesmas doenças. O sofrimento pode ser desigualmente distribuído pela a atuação humana, mas a natureza e as circunstâncias gerais encontram um jeito de equilibrar as coisas. Rand mesma experienciou esse efeito de nivelamento na sua aposentadoria. Depois de uma cirurgia feita em 1974 por questões relacionadas a um câncer de pulmão, causado pelo seu intenso vício por cigarros, ela ficou em uma situação difícil.

Dois anos depois, ela foi colocada aos cuidados de uma assistente social chamada Evva Pryor, que deu uma entrevista em 1998 sobre a relação entre as duas. “Raramente eu respeitei alguém tanto quanto respeitei Ayn Rand”, disse Pryor. Quando perguntara sobre seus desacordos filosóficos, ela respondeu: “Minha formação foi em Serviço Social. Isso deveria te dizer tudo que você precisa saber sobre nossas diferenças”. Pryor foi perguntada sobre a persuasão de Rand para aceitar a Previdência Social e o Medicare (o equivalente ao SUS do Brasil) para ajudar com as exorbitantes e crescentes dividas médicas:

“Eu já tinha lido o suficiente para saber que ela desprezava a interferência do governo e achava que as pessoas deveriam e poderiam viver de forma independente. Ela estava chegando a um ponto em sua vida em que iria receber exatamente o que não gostava …. Para eu fazer o meu trabalho, ela precisava reconhecer que havia exceções em sua teoria. Precisava ver que havia algo como ganância neste mundo … Ela poderia ficar totalmente falida pelas contas médicas se não tivesse assistência. Como ela trabalhou toda a sua vida e pagou a Previdência Social, ela tinha direito a isso. Ela não achava que um indivíduo deveria receber ajuda.”

Ayn Rand
Ayn Rand e seu marido Frank O’Connor.

Finalmente, Rand cedeu. “Se ela concordou ou não, não é o problema”, disse Pryor. “Ela viu a necessidade dela e de seu marido Frank”. Ou, como Weiss coloca, “a realidade se impôs em seus sonhos ideológicos”. Essa é uma maneira de interpretar a contradição: que a filosofia de Rand, o Objetivismo, “não tem propósito prático, exceto promover os interesses econômicos das pessoas que a financiam”. A única função de seu pensamento é justificar a riqueza, explicar a pobreza e normalizar a guerra do tipo hobbesiana de todos contra todos, o que Rand via como um ideal social.

Rand ensinou que “não existe interesse público”, que programas como o Seguro Social e o Medicare roubam dos “criadores” e redistribuem ilegalmente sua riqueza. Esse era um “argumento subliminarmente atraente para empresários ricos que não tinham interesse algum no interesse público … No entanto, os contribuintes da América pagavam as despesas médicas de Rand e Frank O’Connor”. Diante dessa contradição, Randianos oferecem muitas explicações complicadas, o que é interpretado como hipocrisia pelos seus críticos. Cabe a quem assiste essa discussão considerar plausível ou não o que os randianos dizem.

Nos termos mais simples, Rand descobriu ao final de sua vida que ela era também um ser humano e que precisava de ajuda. Em vez de morrer de fome ou cair morta – o que ela deixaria que acontecesse a muitos – ela aceitou a oferta de ajuda. Rand morreu em 1982, quando seu admirador Alan Greenspan começou a colocar suas idéias em prática na administração de Reagan, certificando-se, em sua análise randiana, escreve Weiss, de que o sistema era “mais favorável aos criadores e empresários que eram mais valiosos para a sociedade do que as pessoas fracassadas”. Depois de mais de três décadas dessas políticas, podemos tirar nossas próprias conclusões sobre os resultados.


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